Finalmente, depois de muito tempo, aqui estou eu.
Com coisa nova, de verdade, nada de folhas mofando tiradas da gaveta.
observação para evitar problemas: os fatos e pessoas descritos nesse conto não foram baseados em pessoas/fatos reais, qualquer semelhança É mera coincidência.
Compras
O braço de John percorreu aquele curto espaço de ar rapidamente, com força, energicamente, ao completar sua trajetória, os dedos abriram-se como automaticamente, deixando cair ao chão a folha de papel amassada. Isso não é você, ele insistia, olhando para os olhos dela, enquanto ela, sentada na cadeira do café a que iam sempre, na mesinha da calçada em que sempre ficavam, permanecia estática.
_ Eu, ele disse enfaticamente, como sempre fazia ao comentar seus textos, não importava qual fosse, ele começava com “eu”, talvez para tentar ressaltar que era o que ele realmente achava, era o que ele verdadeiramente pensava. Ela já o sabia, desde o primeiro texto que pedira para ele ler, o quão sincera era sua opinião. Mas ele não abria mão daquele jeito único, que seria seguido, ela já imaginava, por comentários negativos despejados sobre ela sem dó nem piedade, que não causavam o mesmo efeito de antes.
Não, ele não se tornara previsível, era ela que se sentia desse jeito, pois tudo que escrevia soava falso e forçado, e ao entregar as folhas para John uma semana antes, ela já construíra a cena da discussão que teriam na cabeça.
_ Acho que isso está muito ruim. Eu…, fez uma pausa estratégica, típica daqueles que dominam a arte do discurso público, odiei. Ela tentou expressar alguma reação, uma cara de tristeza, raiva, frustração. Nada, ela nada sentia, era como se nada escutasse. Observava como uma espectadora de um filme mudo, e aquela posição, aquela postura, pareceu-lhe natural.
Ele sentou-se em sua frente. Olhou-a mais uma vez, tentou buscar os olhos dela, que pareciam, mais que distantes, ausentes.
_ Se você não está dando atenção a uma única palavra que estou dizendo, porque me deu isso para ler?
Ele estava certo, ela sabia que ele estava certo. E sabia também que ele odiava se sentir ignorado, por mais óbvia que essa afirmação pareça, para ele, parecia ser ainda pior. Ela lembrou-se do motivo, de por que o escolhera para ler seu texto. Bom, ele nunca mentiria para ela, e não falava por meias palavras, por mais que doesse, ele falava, como que sem pensar. Uma das poucas características pueris que resistia em permanecer nele.
_ Acho melhor deixar isso para lá, ela disse, e acrescentou, não é nada importante mesmo. É melhor você não perder seu tempo. Antes que ele pudesse dizer uma palavra de protesto, ela, levantando delicadamente a mão no ar, chamou o garçom.
Deixando-o no hotel, ela o abraçou. Ele teve a impressão de que estava demorando-se naquele gesto mais do que de costume. Beijou-o no rosto, e não no ar, como costumava fazer, tentando demonstrar o quanto estava grata por tê-lo como amigo, por poder contar com sua opinião honesta, apesar de não ter escutado ele atentamente ele, a ele não pertencia a culpa, mas sim a ela. E ela sabia disso há muito tempo.
Deixou as chaves em cima da mesa, junto com as contas para pagar. Abriu a geladeira, procurando por algo para beber. Fechou-a, não tinha quase nada. Estirou o corpo no sofá. Ligou a televisão, passando pelos canais. Desligou. Ligou o chuveiro. Enquanto as gotas de água massageavam seus ombros, sentia que elas não a lavavam. Elas não a livrariam dessa vez. Ela teria que parar com essa atitude irracional e infantil de arrumar desculpas para não pensar a respeito. Para não pensar na verdade. E a verdade era… A verdade era que se acomodara.
Acomodara-se, por quê? Porque se acostumara. A quê? Aos elogios. Aqueles que elogiam demasiadamente, é sabido, que pecam. Mas aqueles do que aceitam os elogios, acostumam-se com eles, como se fossem um sinal de que são suficientes, pecam ainda mais.
E depois dos elogios, veio a preguiça, que se instalou em seu cérebro, adentrou sua alma, amortecendo sua sensibilidade, para instalar-se em seus dedos como que os adormecendo. Lia os escritos alheios com uma ponta de inveja, mas, depois, a inveja foi substituída por uma dose de resignação.
Eu não tenho talento. Eu não tenho talento. Não tenho, simplesmente não tenho. Enganaram-me. Não, enganei-me. Apenas não o tenho. Fácil, convenientemente fácil, aceitar. Aceitar a afirmação que negava o que ouvira desde os tempos de pré-escola. Mais que aceitou, ela o percebia agora, com o barulho da água no piso, com os pés chapinhando na água, ela mais que bebera, se cercara, se afogara na resignação.
Por quê? Porque lhe era mais conveniente. Porque soava como natural. Como alguém reconhecendo a derrota, antes de iniciar a guerra, porque já travara uma batalha anteriormente, e esta acabara mal sucedida. Estaria disposta a parar de usar o tempo (e a falta dele) como desculpa? Entregar-se-ia de corpo e alma (por mais lugar-comum que isso soasse) ao que era sua paixão desde que aprendera a escrever? Penetraria surdamente no reino das palavras?
Desligou o chuveiro, e envolveu-se na toalha. Já vestida, ainda com o cabelo molhado, olhou para a escrivaninha, com os cadernos de anotações. Revolveu as folhas, à procura de algo. Deteve-se num pequeno pedaço de papel reciclado.
Pegou sua bolsa, e, trancando a porta atrás de si, verificou se tinha dinheiro suficiente para ir ao mercado.