Cinzas e falsas esperanças
As cinzas das toras de eucalipto espalhavam-se pelo ambiente, planando no ar, como se o vento fosse música que coordenasse uma certa dança.
Os pés sujos e feridos, pisavam continuamente sobre as farpas de madeira, os olhos não se fechavam mais, nem mesmo com o calor proveniente das chamas. A porta de ferro abria e fechava inúmeras vezes, a cada momento em que era acrescida mais madeira. As chamas pareciam ganhar vida, e, sedentas saiam do forno, como que tomadas por alguma força, querendo possuir cada vez mais.
Catorze horas de trabalho exaustivo, todo dia, os olhos que um dia brilharam, e que refletiram a inocência e a beleza da infância, agora parecem mortos. As roupas pendiam no corpo, enfraquecido, sujas, pretas, as cores que um dia as alegravam nunca mais serão recuperadas, e elas não são as únicas coisas que não poderão ser retomadas, revividas, ressuscitadas.
Não havia uma acomodação, não havia um único aposento, um lugar onde pudesse descansar recuperar as energias, onde pudesse simplesmente estar com seus pensamentos. Só se viam folhas, alguma comida, sacos e colchões de palha sob a tenda de plástico negro.
O dia já se punha, os poucos raios de sol refletiam na lata com água. Era o melhor momento do dia, o que dava forças, um último raio de esperança.
Quando o sol não se via mais no horizonte, os olhos abriram-se para a realidade e o desejo de morrer prevalecia, pois a escuridão era como as cinzas da tora de eucalipto, que um dia floresceu, mas nunca voltaria a ser vivo.
31/03/06