Como não estou tendo muito tempo de escrever coisas novas ultimamente, vou postar aqui um texto que fiz, para uma prova de redação.
A proposta :
” A partir do excerto abaixo, dê continuidade ao texto, adequando-o ao gênero textual crônica.
Reunião de mães
Fernando Sabino
Na reunião de pais, só havia mães. Eu me sentiria constrangido em meio a tanta mulher, por mais simpáticas que me parecessem, e acabaria nem entrando – se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório, duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno.
Sentei-me numa das últimas fileiras, para não causar espécie à seleta assembléia de progenitoras. Uma delas fazia tricô, e outras várias conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. O Padre-Diretor tomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início à sessão.
Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo ao médico, mas desta vez cabia-me também participar antes da reunião. Afinal de contas andava mesmo precisando de verificar pessoalmente a quantas omenino andava.
O Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre o uniforme de gala a ser adotado. A gravatinha é azul? – perguntou uma das mães. Meia três quartos? – perguntou outra. E o emblema no bolsinho? – perguntou uma terceira. Outra ainda, à minha frente, quis saber se tinha pesponto – mas sua pergunta não chegou a ser ouvida.
Invejei-lhes a desenvoltura. Tive vontade de perguntar também alguma coisa, para tornar mais efetivo o meu interesse de pai – mas temi aquelas mães todas voltando a cabeça, curiosas e surpreendidas, ante uma destoante voz de homem, meio gaguejante talvez de insegurança. Poderia também não ser ouvido – e se isso me acontecesse eu sumiria na cadeira. Além do mais, não me ocorria nada de mais prático para perguntar senão o que vinha a ser pesponto.
Acabei concluindo que tanta perguntação quebrava um pouco a solene compostura que devíamos manter, como responsáveis pelo destino de nossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir a explanação do Padre-Diretor:
- Chegamos a agora ao ponto que mais interessa: o quinto ano. Depois de cuidadosa seleção foi dividido em três turmas – a turma 14, dos mais adiantados; a turma 13 dos regulares; e a turma 12, dos atrasados, relapsos, irrequietos, indisciplinados. Os da 13 já não são lá essas coisas, mas os da 12 posso assegurar que dificilmente irão para a frente, não querem nada com o estudo.
Fiquei atento: em qual delas estaria o menino?”
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Minha continuação…
Lembrei-me de uma conversa da minha mãe, cozinheira de mão cheia, que fazia bolos “pra fora”, com a minha irmã. Ambas estavam na cozinha, um bolo estava assando no forno. Minha mãe disse-lhe que deveria escolher a farinha de trigo, para o bolo, pelo preço.
Repentinamente imaginei uma cena bizarra, meu filho Pedro Domingos e os filhos de todas as outras mães enfileirados, um do lado do outro, como sacos de farinha. O Padre-Diretor acaliava um por um, olhos, dentes, cabelo, provas (provas com aquela idade?) e os divide em diferente salas (como prateleiras expositivas).
Ao escolher um saco de farinha (e sua suposta qualidade) pelo preço, minha mãe agia como o Padre-Diretor. Talvez, os motivos dela para esse critério de escolha tenham sido baseados em anos de experiência…Mas que direito tinha o Padre-Diretor, e as professoras, de julgar os alunos daquela maneira?
Será que não é exigir muito de meninos que ainda são crianças? Por que os tratamos desde pequenos como mercadorias? Que espécie de valores estamos transmitindo? Do que adianta a educação religiosa e os princípios passados em sala de aula, se os tratamos dessa forma?
O Padre-Diretor falava os nomes dos alunos, e suas respectivas turmas. Levantei-me, era em ordem alfabética, o próximo seria Pedro Domingos. Ele falou seu nome, chamei meu filho (que estava no palco), e saí da reunião de mães, mesmo sem saber o que vinha a ser pesponto.”
foto de uma pessoa fazendo o tal “pesponto”
Fantástico, absolutamente exepcional!
Agora eu sei o que é um pesponto. ;)