Nunca é tarde sempre é tarde
Partindo do conto de Silvio Fiorani, “Nunca é tarde, sempre é tarde”, desenvolvi uma continuação.
Nunca é tarde, sempre é tarde
Conseguiu aprontar-se mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia. Secretária. Sou uma secretária, pensou, procurando conscientizar-se. Não devo ser, no trabalho, nem bonita, nem feia. Devo me pintar, vestir-me bem, mas sem exagero. Beleza mesmo a pra fim de semana. Nem bonita nem feia, disse consigo mesma. Concluiu que não havia tempo nem para o café. Cruzou a sala e o hall em disparada, na direção da porta da cozinha, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe envolvida pelos vapores da cozinha, eu como alguma coisa lá mesmo. Sempre tem alguém com uma bolachinha disponível. Café nunca falta. A mãe reclamou mais uma vez. Você acaba doente, Su. Assim, não. Su, enlouquecida pela pressa, nada ouviu. Poucas vezes ouvia o que a mãe lhe dizia. Louca de pressa, ia sair, avançou a mão para a maçaneta da porta e assustou-se; A campainha tocou naquele exato momento. Quem haveria de ser àquela hora? A campainha era insistente. Algum dedo nervoso apertava-a sem tréguas. [minha continuação parte daqui].
FIORANI, Silvio. IN: Contos Brasileiros.
Minha continuação:
[...] A campainha era insistente. Algum dedo nervoso apertava-a sem tréguas.
Abriu a porta. Seu José, velho conhecido de Su, era seu carteiro desde que mudaram para a Rua das Acácias. Cumprimentaram-se, ela tentava disfarçar a pressa, ele olhou de relance para dentro do sobrado de paredes brancas. O teto estava marcado por manchas de umidade, as paredes ainda continham a coleção de pratos da mãe de Su, a cozinha estava escura e um cheiro leve, mas perceptível de mofo emanava no sofá estampado.
Su colocou a correspondência mesinha do telefone, despediu-se de seu José que se encaminhava para a casa vizinha, trancou a porta e saiu em disparada pela rua, tão em disparada quanto os sapatos pretos com salto baixo lhe permitiam. Sapatos de secretária, nem feios nem bonitos. Seu corpo podia estar dentro do ônibus, parado pelo semáforo vermelho, mas sua mente estava fora, olhou pro relógio, parecia nunca haver tempo suficiente, sempre algo a fazer.
No percurso, o ônibus atravessou o centro e até chegar a entrada do prédio de advocacia, Su foi elaborando mentalmente listas das coisas a fazer, suas tarefas do escritório, seus objetivos a longo prazo, problemas a serem resolvidos. Olhou de relance o relógio da parede do Hall, enquanto se encaminhava para o elevador.
Tempo. Tempo. Tempo. Horas, minutos, segundos… As pessoas saíram do elevador, era o seu andar, ela podia descer agora, a saída estava livre. A primeira coisa que pôde ver, assim que a porta do elevador se abriu foi um relógio. Sempre fora.
Su decidiu-se; o relógio estragara sua vida no passado, não podia deixá-lo continuar a controlá-la, a sugar-lhe o vigor que já começara a deixar seu corpo. O tempo passou, sua função continuou a mesma. Sua mãe falecera. Nunca dedicava sua atenção total à mãe, estava sempre a pensar em outras coisas que deviam ser feitas, em problemas do escritório a serem resolvidos, reuniões a serem marcadas.
O relógio continuava, os segundos passavam, ela precisava acabar com aquilo. Saiu correndo do elevador, os sapatos de secretária quase patinando sobre o chão claro do escritório. Em direção à janela, respirou fundo, enchendo os pulmões com todo o ar que podia. Subiu no parapeito e pulou. Para um lugar onde não havia tempo, onde poderia ser livre, quem sabe encontraria sua mãe, e, dessa vez, chegaria na hora certa para o aniversário dela, nem cedo, nem tarde demais.
texto de 2007 – modificações feitas em 2010
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