(não) Nostalgia
foto daqui
(não) Nostalgia
A música tocada pelo velho senhor do outro lado da rua soava melancólica. Quase como se o violino pedisse para parar. Como se não mais agüentasse aquele labor, num arrastar ansioso pela pausa que dura mais que qualquer outra.
Não sei se era eu, mas o café charmoso a que sempre nos dirigíamos para longas conversas sem preocupação de sermos expulsos estava diferente. A proprietária, dona Clara, nos conhecia desde nossa ‘primeira adolescência’. Em outras ocasiões, quando ela ainda estava bem de saúde, e ficava no caixa, a distribuir cumprimentos calorosos aos fregueses, perguntava-nos onde estavam os outros. É engraçado, pois, nossas respostas saíam quase ensaiadas, uma hora era a faculdade, depois a namorada, os amigos do serviço, alguma coisa qualquer que mantinha os outros ocupados, mesmo que para um café.
Há algum tempo, não ocupávamos mais as quatro mesas cheias, mas a localização era sempre a mesma, no canto, de onde podíamos ver a janela, a porta, o movimento da rua, mas próximos do centro, ao mesmo tempo. Não sei explicar, mas era assim. Sabia, assim que ele me ligou, chamando para tomarmos café juntos, que a escolha fora proposital. Afinal, apesar de não ser todo fim de semana, nos velhos tempos (o que parece um pecado dizer, segundo a dona Clara, visto a idade que temos) íamos ao café com freqüência, mais que isso, era parte da nossa rotina.
Assim que se sentou, percebi que estava agitado. Seus olhos dispersos, não me olhava nos olhos por mais de três segundos seguidos. Amigos desde a infância, ele sabia que eu estava a analisá-lo, tocou de leve meu braço, e disse firmemente, de maneira convincente para qualquer um que ouvisse, exceto eu – ‘Você não precisa olhar pra mim desse jeito. Já sei o que você está fazendo, mas eu estou bem Mô. Estou bem, sério, isso é desnecessário. Além do mais, vai ser melhor assim’. Gosto do som da voz dele me chamando de Mô. Há um tempo atrás o pessoal costumava brincar com isso, que era ambíguo ele me chamar assim. Bobagem, apenas um apelido apropriado para o meu nome.
Agora percebo que eu, como sempre, me apegava a algo secundário – analisar o Felipe – para não ter que encarar meus próprios sentimentos com relação ao que estava acontecendo. Fiquei a fitar-lhe os olhos verdes por algum tempo, os raios alaranjados do sol da tarde coloriam e passavam por entre as frestas da cortina branca rendada, do lado de fora, o senhorzinho descansava, deleitando-se com um copo de café do bar da esquina, o violino silenciado, pousado ao seu lado. O cabelo dele sempre ficava mais claro sob a luz do sol, não tinha mudado nada desde os treze anos, a verdade é que, embora se dissesse um cara moderno e desapegado, isso não era verdade. Ele não trocava de corte desde que eu dissera que dá um charme ao rosto dele e coincidentemente foi com ele que conquistara a primeira namoradinha.
– Mô, você acha que, se eu ficasse aqui, as coisas mudariam? Se estando aqui nada acontece, do que adianta eu…
– Mas com você indo, as coisas só vão ficar mais, mais…
– Mais? Mais o quê? Chega, acabou. Você já sabe que não é como antes, estarmos aqui eu e você, apenas, é prova disso. Não só não é como antes, mas ninguém mais quer que seja. Ninguém se esforça mais para vir.
Foi nesse instante que o celular dele tocou pela primeira vez ‘In many ways, they’ll miss the good old days/Someday/Someday’, aquela música do Strokes que eu ouvi pela primeira vez naquela tarde na casa dele. Estávamos todos lá. O sol já estava de saída, o azul escuro passando a dominar a cena. Sentados ali, apreciando a música, no jardim da casa dele, lembro que os pais dele ainda não estavam separados. Ele nem se mexeu, estava concentrado demais nessa conversa, e queria usar todas as suas habilidades de advogado recém formado para eu ceder.
Eu sei, sempre falam ‘alguém tem que ceder’, mas eu não cedia antes, por que ele se iludia achando que agora, só porque tinha aprendido algumas técnicas de retórica e oratória, as coisas seriam diferentes? Certas coisas não mudam, não importa o tempo que passe, o que se aprenda, elas simplesmente permanecem as mesmas.
– Então, você nem se despediu deles…?
– Para que me despedir deles? Já me despedi dos colegas de trabalho, da faculdade, por que eu vou me despedir de gente que não vejo há meses… Na verdade, há quase um ano?
– Não acredito que você falou isso! Quer dizer que se despedir das pessoas com as quais você nunca passou do ‘Bom dia, como vai?’ – ‘Bem, e você?’ – ‘Tudo ótimo, obrigado’ e não se despedir daqueles com os quais você tem toda uma história juntos, isso faz sentido? Nem que fosse por consideração, por amizade, era o mínimo…
– Amizade? Consideração? Eles não se davam nem o trabalho de cancelar quando começaram a faltar nas nossas ‘reuniões’. Será que você já se esqueceu que ficávamos a esperá-los, ocupando três mesas daqui do café, passando vergonha, com duas delas completamente vazias? E amizade é feita de consideração pelo passado agora? Por favor, Mô, são boas memórias, somente boas memórias.
É claro que o ouvi atentamente. Eu, talvez até mais do que ele, lembrava bem daquela cena, as duas mesas vazias, a dona Clara um misto de irritada e preocupada, e eu, otimista ainda, tentando ligar pras pessoas. Nem sei se realmente estava otimista, mas era essa a impressão que eu queria dar. Dissimulando minha verdadeira irritação e uma ponta de desapontamento por eles simplesmente não estarem lá. Acabávamos nós dois, ou nós e mais um que chegava uma hora depois do combinado, em uma mesa, papeando sobre coisas que nem me lembro.
Até ele falar aquilo e me despertar essas memórias, eu estava mexendo o chantilly do meu expresso curto, displicentemente. Não sei ao certo a razão, mas reparei no teto. No cantinho, sinais de mofo, uma, duas lâmpadas queimadas. Senti um pouco de nojo, e percebi, com uma estranha surpresa, no estofamento das cadeiras vazias da mesa ao lado, o alaranjado do sol não mais disfarçando o encardido.
Foi aí que dei por mim acreditando nele. Eu pensava que não ia ser nesse momento que cederia, mas cedi. Acreditei, tanto na decisão que tomara quanto na honestidade de suas palavras, estava convencida. Acreditei que ele não acreditava mais naquilo. Ele não olhava pra porta, nem pelas janelas, não esperava que ninguém chegasse. Não tinha chamado mais ninguém. Comecei a pensar subitamente em como eu era repetitiva para alguém como ele, que me conheci há tanto tempo. Ele provavelmente nem se dera o trabalho de escutar o que eu havia falado pelo telefone, sobre como as amizades podem se transformar ao longo do tempo, sobre como isso é normal. Dispersei esses pensamentos, e pronta para ceder, ia confirmar se ele não tinha chamado mais ninguém mesmo, quando seu telefone tocou novamente.
O toque do celular era a da música que marcara nossos dias de adolescentes com algumas tardes à toa ouvindo The Strokes: “In many ways we’ll miss the good old days Someday Someday” soou novamente, ele hesitava entre atender ou não, olhou de relance no identificador. Mas naquele momento o que vinha à minha cabeça era exatamente o outro trecho: “It hurts to say but I want you to stay”.

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