Como deve ser
Lei-a ba-leia
Lembro-me bem de noites como essa, quando meu pai tinha uma trégua da correria Rio – São Paulo e depois do jantar não ligávamos a televisão. A sala espaçosa permitia que sentássemos em um círculo, minha mãe, eu, meu pai e meu irmão, nessa ordem. A cortina de persianas quebradas que faziam barulho arrastando no chão tentavam impedir a entrada de insetos naquelas noites de maresia quase morna. Nesse momento não tinha nem discussão.
Todos sabiam o que ia ser feito: eu preparava os papeis, cortando e escrevendo e meu irmão os dobrava; embaralhávamos na mão dele mesmo e cada um pegava um – detetive, assassino, vítima, vítima. Minha irmã, na época muito novinha (uns três anos), distraia-se com alguns brinquedos, perto da nossa roda, sentada no chão.
Quando o jogo estava quase acabado, o assassino já matara uma vítima e o detetive ainda tentando adivinhar quem era quem, ela irrompe em nossa roda, olha para o meu pai firmemente e diz “Você parece uma baleia!” – enfaticamente, categoricamente. Por alguns segundos estamos todos sem saber ao certo o que ela quis dizer. E nos damos conta de que ela esteve o tempo todo observando o jogo, ávida por participar. Sua frase – se dita por mim ou por meu irmão ao meu pai (que na época tinha ganhado uns quilinhos) resultaria em bronca – era uma aproximação da frase do detetive, quando descobre o assassino a tempo “Você está preso em nome da lei!”.
É como escreveu Pedro Serrano esses dias em “Se você fosse eu ficasse”: a palavra sai como deve sair. Quem nunca se divertiu com falas de crianças que, sempre atentas ao que os ‘adultos’ fazem e dizem acabam dizendo certas coisas que ninguém mais poderia dizer? Pena que muitas vezes nem prestamos atenção a esses momentos preciosos, cada vez mais raros em tempos em que as crianças tem desde cedo problemas de calcificação porque simplesmente não pegam sol; ficam enfurnadas nas casas, com seus mini gadgets
Adeus 2011
2011 passou e para mim foi um ano muito bom, eu até ouso dizer que foi ótimo.
Conheci pessoas interessantes, aprendi coisas novas, dei a cara pra bater, mexi meu peão nesse jogo imprevisível que é a vida…. 2011 foi um ano em que, com relação ao blog, eu me dediquei a tentar elevar o nível dos escritos de ficção inédita, trabalhando neles muitas vezes antes de publicá-los.
Em parte por isso, o número de postagens foi menor. Mas tive uma ótima resposta de vocês, leitores, especialmente quando abri o jogo e escrevi posts saídos daqui de dentro da minha cabeça. Sobre a vida, sobre sentimentos, sobre momentos.
Agradeço a todos e espero que gostem das melhorias que estou encaminhando por aqui (uma delas, o layout ainda não está definido, mas fiquem à vontade para comentar).
Inaugurei também a categoria ”livro do mês” por meio da qual indicarei leituras diversas :)
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Vamos ao relatório…
Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.
Aqui está um resumo:
Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 4.600 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.
Leituras de férias – Of Mice and Men
Nessas férias resolvi ler um livro que estava encostado na estante, quase esquecido. Eu o comprei quando estava num nível do curso de inglês que o sugeria como leitura. Na época, acabamos (a sala) nem lendo, mas valeu a pena esperar.
Falo que valeu a pena esperar porque fiz no semestre passado a disciplina de História dos Estados Unidos, que me deu um embasamento mínimo para entender melhor esse clássico que é Of Mice and Men (Sobre ratos e homens) de John Steinbeck (1902-1968). O autor nasceu em Salinas, Califórnia, onde se passa a história de dois homens, George e Lennie à procura de trabalho nas fazendas.

Essa obra faz parte de uma trilogia de romances, publicada no fim dos anos 1930, que focou na classe trabalhadora californiana, junto com In Dubious Battle (1936) e The Grapes of Wrath (As vinhas da ira). O que me chamou a atenção´, e apresentou certa dificuldade para mim, de início foi a maneira como ele escreve os diálogos desses homens, trazendo elementos de vocabulário da época: gírias, e expressões idiomáticas.
Amazingly enough, eu estava procurando algumas dessas expressões em dicionários online, quando encontrei uma página com os idioms de cada capítulo do livro, listados e explicados aqui.
Uma coisa que me impressionou foi a descrição que é feita de um dos trabalhadores, que George e Lennie conhecem vou transcrevê-la aqui
“(…)A tall man stood in the doorway. He held a crushed Stetson hat under his arm while he combed his long, black, damp hair straight back. Like the others he wore blue jeans and a short denim jacket. When he had finished combing his hairs he moved into the room, and he moved with majesty only achieved by royalty and master craftsman. He was a jerkline skinner, the prince of the ranch, capable of driving ten, sixteen, even twenty mules iwth a single line to the leaders. He was capable of killing a fly on the wheeler’s butt with a bull whip without touching the mule. There was a gravity in his manner and a quiet so profound that all talk stopped when he spoke. His authority was so great that his word was taken on any subject, be it politics or love. This was Slim, (a descrição abrange 23 linhas e é apenas na 16ª que esse homem é denominado), the jerkline skinner. His hachet face was ageless. He might have been thirty-five or fifty. His ear heard more than was said to him, and his slow speech had overtones not of thought, but of understanding beyond thought. His hands, large and lean, were as delicate in their action as those of a temple dancer.(…)” Of Mice and Men Pocket Penguin Classic 2006. pp. 37 e 38.
Parece até mesmo que há uma ou duas adaptações para o cinema, mas ainda não tive a oportunidade de assistir. É uma ótima leitura, e, mesmo que não se sinta seduzido por questões da construção formal da narrativa, o leitor é cativado pela história em si que fala (não quero revelar demais) sobre ratos (para falar dos) homens.
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Esse post inaugura a coluna ‘leitura do mês’. E, para acompanhá-lo, sugiro um post de um blog recém- descoberto, simplesmente imperdível, que fala da nossa relação com os livros http://ismoaesmo.blogspot.com/2010/12/o-livro-e-o-homem.html.

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