Archive | 30/01/2012

Como deve ser

Lei-a ba-leia 

               Lembro-me bem de noites como essa, quando meu pai tinha uma trégua da correria Rio – São Paulo e depois do jantar não ligávamos a televisão. A sala espaçosa permitia que sentássemos em um círculo, minha mãe, eu, meu pai e meu irmão, nessa ordem. A cortina de persianas quebradas que faziam barulho arrastando no chão tentavam impedir a entrada de insetos naquelas noites de maresia quase morna. Nesse momento não tinha nem discussão.

                Todos sabiam o que ia ser feito: eu preparava os papeis, cortando e escrevendo e meu irmão os dobrava; embaralhávamos na mão dele mesmo e cada um pegava um – detetive, assassino, vítima, vítima. Minha irmã, na época muito novinha (uns três anos), distraia-se com alguns brinquedos, perto da nossa roda, sentada no chão.

                Quando o jogo estava quase acabado, o assassino já matara uma vítima e o detetive ainda tentando adivinhar quem era quem, ela irrompe em nossa roda, olha para o meu pai firmemente e diz “Você parece uma baleia!” – enfaticamente, categoricamente. Por alguns segundos estamos todos sem saber ao certo o que ela quis dizer. E nos damos conta de que ela esteve o tempo todo observando o jogo, ávida por participar. Sua frase – se dita por mim ou por meu irmão ao meu pai (que na época tinha ganhado uns quilinhos) resultaria em bronca – era uma aproximação da frase do detetive, quando descobre o assassino a tempo “Você está preso em nome da lei!”.

                É como escreveu Pedro Serrano esses dias em “Se você fosse eu ficasse”: a palavra sai como deve sair. Quem nunca se divertiu com falas de crianças que, sempre atentas ao que os ‘adultos’ fazem e dizem acabam dizendo certas coisas que ninguém mais poderia dizer? Pena que muitas vezes nem prestamos atenção a esses momentos preciosos, cada vez mais raros em tempos em que as crianças tem desde cedo problemas de calcificação porque simplesmente não pegam sol; ficam enfurnadas nas casas, com seus mini gadgets