Das nossas palavras

Escrever é uma luta contínua com a palavra.
Um combate que tem algo de aliança secreta” – Júlio Cortázar               

                Um caro amigo meu acaba de iniciar um blog. O post inicial foi escrito há algum tempo e eu, chata que sou, cobrei um post novo. Como resposta – ele disse que acha que o escreveu está (sem mais delongas) uma bosta. Não sei se foi com essas exatas palavras que me disse isso, mas a sensação, assim que acabo de escrever algo é, em quase todas as vezes, exatamente essa. E nessas horas eu me pergunto, como vou melhorar meus escritos, se publico qualquer lixo que me aparece na tela do Word? Mas acho que ficar longos períodos sem publicar, com mais de vinte rascunhos para serem trabalhados no PC começou a não fazer muito sentido pra mim, procrastinadora que sou.

                E foi com alguma surpresa que me deparei com a frase do início: “Escrever é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta.” do Júlio Cortázar – o que foi suficiente para me encorajar a publicar essa cena, sem pretensões. Sigo lutando :)

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masp

As nossas palavras

                Três horas da tarde é um horário interessante para se marcar o que não tem nome ainda. As nuvens esparsas no céu dosavam a quantidade de luz, mas o calor do sol era o mesmo de um céu aberto. O vestido com tons de rosa e azul lhe conferia um aspecto juvenil que os pés enfiados na sandália tentavam disfarçar. Estranhamente, era uma figura solitária naquele amplo vão. As outras pessoas mantinham-se a certa distância, aglutinadas nos cantos. Os ombros eram tensos e o relógio exausto de ser conferido a cada três minutos. 

                Sim, ela era toda insegurança. As mãos escorriam o suor teimoso que o vestido novo parecia não dar conta de secar. Vestido novo que se arrependeu de ter escolhido, pois em sua mente a cena da mosca sendo arrastada para o centro do pires* se repetia exatamente como no conto que lera. A mente inquieta a bombardeá-la com questionamentos – “devia ou não?” “Mas e se…?”; “Não seria melhor se…?” – por que não cancelara a tempo? Tempo, que se arrastava sofregamente feito um velho senhor e nada, nenhum sinal dele.

                Sinal foi o quase suspiro misto de susto que ela tomou quando ele veio, de repente, tomando-lhe o braço por trás. Sem tempo de se recompor de suas digressões sequer esboçou um sorriso. Mas se não sorria com a boca, seus olhos eram quase alegria, alívio, sim, de não ter sido deixada sozinha. Sozinha não estava mais, porém era tão difícil pensar no que falar. Se antes estava imersa em marés de pensamentos, agora sofria para encontrar a justa medida: nem quieta demais nem demasiadamente falante. O necessário para manter o interesse e dar margem ao diálogo.

                Como fazer, se as palavras lhe fugiam em estripulias, deixando-a com o olhar meio perdido, meio tonto? Nem tonto, nem pronto; as palavras dele fluíam como rios tépidos, capazes de lhe arrancar instantâneo afeto, e os olhos dela eram cristalinos de afeição. Afeição que se mostrava a pulsar no ritmo mais frenético que o normal, fazendo sua face corar, na justa medida. Medida, quão de si mostrar na primeira vez? Quanto revelar nesse primeiro trocar de olhares, risos e lugares?

                   O ritmo era ditado por ele que a conduzia com seus passos firmes, mas sem posicionar-se muito à frente. Suficiente para lhe assegurar que o terreno era firme, que podia pisar sem medo. E as palavras dele, assim convidavam as dela, a se exporem, a se revelarem. As palavras dela quase não lhe saíam, de início, mas pouco a pouco foram deslizando, se mostrando, se abrindo.

                E naquele momento o vestido novo não mais incomodava. A brisa leve secava o suor de suas mãos. As vozes da insegurança silenciaram em sua cabeça. O tempo não corria feito adolescente enérgico, mas não se arrastava como velho letárgico – fluía. Era toda concentração naquele instante, não se fazia necessário questionar. Eram ambos a justa medida um para o outro. E as palavras dela, ao saírem, deixavam de lhe pertencer, pois às dele iam se juntar tão logo soltas no ar. Elas não mais lhe pertenciam, se descolavam e formavam algo novo; nem só dele, nem só dela, mas na justa medida.

 *o conto a que se é feito referência é “O vestido novo” de Virginia Woolf – que, em certa medida inspirou essa cena, encontrado em Contos Completos Virginia Woolf. Fixação de textos e notas Susan Dick tradução Leonardo Fróes. 2. ed. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.    

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Sobre Larissa Oyadomari

Chata, cri-cri, e difícil de lidar. Paulistana que retorna à cidade depois de afastada por alguns anos. Estudante de História, interessada pela vida. ...y otras cositas más.

3 Responses to “Das nossas palavras”

  1. Andrés says :

    Encantador o seu texto, Lari! =)
    Talvez um engenheiro não devesse ousar passear pelo mundo das palavras, mas como as vezes eu sou meio ousado, não resisti. Então, mais uma vez correndo o risco do ridículo, aqui vai alguma coisa que rascunhei para “dialogar” com o seu. ;)

    Subia as escadarias apressado, já estava um minuto atrasado, ou acreditava estar. Pois só nos atrasamos se houver alguém a nos esperar, e ela não havia respondido sua última mensagem, logo talvez não o esperasse, logo talvez nem aparecesse. Mas, naquele momento, só lhe restava continuar caminhando.
    A camiseta meio amassada, era a melhor das que estavam limpas. O cabelo meio bagunçado, mas ele fez o que pode ao sair correndo de casa. O perfume! Sempre se lembrava, mas dessa vez, justo dessa vez, havia esquecido completamente. E agora… agora era mais do que tarde para remediar tamanha tragédia. O heroico desodorante teria de bastar.
    Logo a frente já podia avistar o vão, como braços duros que brotavam do chão e se cruzavam no céu com a frieza do velho concreto. Reduziu o passo, não queria encontrá-la nem suado nem ofegante, como se isso fosse possível. Mais alguns instantes e a sombra daquela pesada, porém flutuante, construção o envolvia, chegara ao local marcado. Olhou para um lado e para o outro com uma angústia contida. Várias pessoas estavam ali e som de suas vozes era abafado pelo rosnado dos carros que passavam na avenida, mas todas lhe eram estranhas, não a via. Talvez não devesse ter vindo. Talvez tudo aquilo fosse uma ideia boba que só um tolo como ele poderia acreditar.
    Foi quando um grupo que ali estava resolveu se mover e, como que nuvem espessa que se move revelando a Lua, ele a viu, sentada poucos metros a frente. Perdeu o folego por um instante e sentiu o coração acelerar ainda mais. Naquele disparo interno sentia quase como se fosse morrer ali, traído justamente por aquele órgão que o havia atraído até tão longe. Minimamente recuperado ele permanecia hesitante. Ela estava de costas, isso lhe conferia uma vantagem tática. Tal pensamento serviu como uma faísca de segurança que libertou um sorriso ardiloso. Se aproximou com os passos mais macios que conseguia, como se fosse possível ouvir algum tipo de caminhar em um espaço tão ruidoso como aquele. Atrás dela, em um último suspiro, a segurou da forma mais carinhosa que pode: queria surpreendê-la, mas não assustá-la.
    Ela se vira, os olhares se encontram, se cumprimentam. Porém, ela não sorri. A ausência de simples gesto é o bastante para abalar o pouco que segurança que tinha. E agora, apesar de já haver passado a primeira parte de colossal batalha, ainda faltava outra igualmente árdua: a com as palavras. Tinha que mantê-las fluindo, mas sem parecer inseguro. Fazê-la sorrir, mas sem parecer bobo. Contar-lhe coisas, mas sem ser enfadonho. Quanta responsabilidade para um mero mortal.
    Arriscou um comentário aqui, outro ali. Era tudo que suas ideias confusas e rodopiantes conseguiam parir. Logo um tímido sorriso desabrochou nela e ele percebeu que a insegurança não morava apenas em seu próprio coração, mas era compartilhada por ambos. Tal percepção foi o bastante para recobrar a confiança perdida e também a nunca antes possuída. Um sopro de alívio tirou parte do peso sobre seus ombros, seu caminhar mais leve se tornou e suas palavras mais suaves lhe saíram. Ela respondia encantadoramente da mesma forma, e agora, sua mera presença já o acariciava, sua ansiedade ia pouco a pouco se transformando em deleite. A guerra interna se esvaia em paz dançante. Era como se dançassem embalados por uma música que todo esse tempo estava lá, mas só agora, juntos, podiam senti-la. Naquele momento as frases se entrelaçavam, os olhares falavam, os sorrisos se olhavam e os gestos sorriam. E então, os dois deixavam de serem os dois para serem o todo, e todo deixava de ser o todo para ser os dois.

  2. Renato Sassone says :

    “O tempo não corria feito adolescente enérgico, mas não se arrastava como velho letárgico – fluía.”

    E eu adoro quando alguém exprime momentos com os quais me identifico através de uma composição tão bela!

    • Larissa Oyadomari says :

      Renato, que bom que vc gostou. Essa frase me surgiu assim, no meio do vão do masp, enquanto eu esperava amigos pra conferir uma exposição. Toda essa cena, na verdade. Escrevi no bloco de anotações do celular o rascunho :) Muito obrigada pela sua presença =) São comentários como o seu que me mantém firme na luta com a palavra ;) beijos

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