Noite de festa
Noite de festa
‘(…) na casa aberta/é noite de festa/dançam Geralda, Helena, Flor(…)’ – música de Flávio Henrique, letra de Chico Amaral. No álbum Pietá, de Milton Nascimento.
Já era noite pelo relógio, mas em pleno horário de verão, ainda estava claro. A lua aparecia timidamente no céu, o branco da lua e das poucas nuvens mesclando-se. Aquele fim de tarde após a chuva estava incrivelmente fresco, diferente dos outros dias anteriores, muito abafados. Subindo-se a rua, depois de passar por alguns prédios altos o bastante para destoar da ainda maioria de casas térreas do quarteirão, podia-se avistá-la.
Os raios de sol tornavam-se levemente alaranjados, e aquarelavam os muros laterais brancos. A música podia ser ouvida da esquina, chegava até os apartamentos dos prédios vizinhos, sem pedir permissão. O portãozinho estava aberto e era possível observar as pessoas a tocar seus instrumentos, dançar e cantar na sala de estar, pela rua. Uma menina distraída passeando com o cachorro tirou os fones do ouvido e parou para escutar.
Deixou-se demorar-se ali, observando a sala de estar, a música parecia estar sendo tocada no meio da rua, tão fácil era senti-la irradiando-se pelos arredores. Era a primeira vez que reparava naquela casa. Achou o jardim bem cuidado, as rosas vermelhas e cor-de-rosa incrivelmente bonitas, e perguntou-se como a dona da casa fazia para cuidá-las. Seu pequeno jardim, no alto do 12º andar não ‘ia pra frente’, por mais que tentasse toda a sorte de adubos e aditivos disponíveis para se comprar.
Mas os pensamentos do jardim não duraram muito em sua mente, pois logo identificou que tocavam uma marchinha de carnaval, uma que sua mãe costumava cantar, embalando-a quando criança. Sorriu consigo mesma, acariciou o cachorro, que tentou, em vão, desvencilhar-se do abraço apertado e se permitiu ficar mais alguns instantes a observar o ensaio. O grupo de pessoas era diversificado, um jovem da idade dela, duas senhoras, alguns senhores de meia idade, e outros cujos sinais do tempo e das experiências eram mais evidentes nas faces.
O publicitário compenetrado em cumprir seus 45 minutos de caminhada, recomendação do cardiologista, caso ele tivesse disposto a evitar problemas de coração não gostava de fones de ouvido. Experimentara de todos os tipos, mas todos pareciam machucar suas orelhas. Música alta nos fones era para aqueles que não podiam ficar com seus próprios pensamentos, o que não era seu caso, dizia a si mesmo, todos os dias, antes de caminhar. Estava prestes a completar trinta minutos, quando, aproximando-se da esquina, ouviu a música.
No começo, não deu muita atenção, e voltou a seus pensamentos. Porém, algo estranhamente familiar na canção tocada o fez parar um pouco, para escutar. Lembrou-se das brincadeiras de criança, da casa de vila, dos vizinhos reunidos. Das marchinhas de carnaval, dos preparativos. Consultou o relógio, e deixou-se observar, por pouco tempo, senão perderia o ritmo, aquele ensaio de carnaval. Foi se aproximando da casa quando deparou-se com a menina e com o cachorro. O cachorro estava deitado na calçada, dormindo confortavelmente. A menina estava de pé, bem de frente para a casa, sem disfarçar que assistia atentamente ao ensaio.
Ele juntou-se a ela, de certa forma, a observar também o ensaio, do outro lado da rua, os portões azuis da casa estavam abertos, tinha-se a impressão de que a sala de estar era parte integrante da rua. Olharam-se como que envergonhados por estar naquela situação, mas havia um meio sorriso em seus rostos que não era possível disfarçar. A música estava quase no final, e ambos cantarolavam trechos dela, ela, fingindo falar com o cachorro. Ele, bem baixinho, para si mesmo.
A canção chegou ao fim, os participantes da animada roda dançavam, e uma senhora de vestido vermelho foi até o jardim, abrir os portões. Ela olhou para as duas figuras do outro lado da rua e sorriu. Chamou ambos até onde estava, e eles a acompanharam. Apresentou-os aos outros membros do grupo, explicou a eles que ensaiavam para o carnaval. Os dois elogiaram a todos pela música, e aos poucos começaram a se soltar. Esqueceram-se dos outros compromissos e ficaram a aproveitar a música e a boa companhia.
O cachorro amarrado no banco do quintal não se incomodava pois também encontrara companhia. A lua agora dominava o céu, transformando o ensaio numa verdadeira noite de festa, e outros vizinhos vinham até a casa aberta, recém-chegados do trabalho, prontos para participar. Pegavam alguns instrumentos no baú, no canto do cômodo, que tornava-se mais espaçoso, com as portas escancaradas para o avarandado que dava para o jardim.
A menina esqueceu-se que precisava arrumar coisas em casa. O publicitário também, e o projeto grande para a semana que vinha abandonou sua cabeça. Não precisava mais convier com seus pensamentos, pois naquele momento, simplesmente não os tinha. No lugar deles, era todo sensações. E as sensações eram desfrutadas aos poucos, languida e intensamente. Pegou um tambor e arriscou acompanhar a marchinha. Sempre falhara nessa quando era criança, mas dessa vez, conseguiu. Sorriu e arriscou alguns passos de dança na roda, chamando a menina a dançar. Ela despira-se de sua timidez e dançava com as senhorinhas.
A lua ainda dominava o céu quando se despediram apressadamente, acordados pelo tocar de celulares e prometeram voltar em outros ensaios. Saindo da casa, descobriram-se vizinhos de prédio, moravam no mesmo condomínio. No elevador, conversaram sobre as marchinhas tocadas e sobre a possibilidade de se juntarem ao grupo. Os dias se passaram e algumas semanas depois eles ainda falaram daquela noite. Meses depois, esbarravam-se no elevador, mas passaram a falar sobre o tempo um achando que o outro não se lembrava daquela noite. Ainda os vejo de vez em quando, quando a época dos ensaios chega, se demorando em frente àquela casa. Mas noite de festa como aquela não houve igual.
Obs.: Assista ao vídeo da canção que me inspirou antes, durante ou depois de ler.
Balanços (oh, next year)
Toda vez que chega o fim de um semestre, e, principalmente, no final de um ano, eu tomo alguns instantes, que podem se prolongar por dias, para fazer uma espécie de balanço pessoal. À primeira vista, pode parecer algo típico de quem se diz uma ex-perfeccionista, mas na verdade é algo que descobri como sadio, ajuda a colocar as coisas em perspectiva, pesar o que deu certo e o que deu errado. Reavaliar comportamentos. Tomar decisões. Hora de determinar o que continua e o que não.
Outras pessoas preferem fazer as resoluções de ano novo. Talvez a segunda parte do balanço são as resoluções,não sei ao certo. Mas pelo menos para mim, resoluções por si só, ou combinadas com roupas de cores específicas não se mostraram tão eficazes, bom, talvez eu seja só uma exceção. O fato é que a passagem do ano, assim como o fim de alguma etapa suscita em quase todos desejos de mudar. Esperanças de que talvez nesse ‘novo’ ano, semestre, mês, o que seja, que está por vir mude as coisas para melhor.
E é sobre essas expectativas, desejos de mudança, promessas feitas para nós mesmos e resoluções de ano novo que versa a música ‘Next Year’ de Jamie Cullum que selecionei para esse post.
Next Year,
Things are gonna change,
Gonna drink less beer
And start all over again
Gonna read more books
Gonna keep up with the news
Gonna learn how to cook
And spend less money on shoes
Pay my bills on time
File my mail away, everyday
Only drink the finest wine
And call my Gran every Sunday
Resolutions
Well Baby they come and go
Will I do any of these things?
The answer’s probably no
But if there’s one thing, I must do,
Despite my greatest fears
I’m gonna say to you
How I’ve felt all of these years
Next Year, Next Year, Next Year
I gonna tell you, how I feel
Well, resolutions
Baby they come and go
Will I do any of these things?
The answers probably no
But if there’s one thing, I must do,
Despite my greatest fears
I’m gonna say to you
How I’ve felt all of these years
Next Year, Next Year, Next Year
Corinne comes to Brazil!
Pela primeira vez, Corinne Bailey Rae vem ao Brasil.
Show em São Paulo, dia 4 de novembro no caríssimo (na verdade carésimo) Via Funchal.
A vinda dela ao Brasil foi confirmada em seu perfil do Facebook.
Ingressos que custam entre R$ 150 (mezanino lateral) e R$ 600 (plateia VIP e camarote) Eles estão à venda na bilheteria da casa de espetáculos, no site www.viafunchal.showare.com.br e em pontos de venda em Guarulhos e Santana de Parnaíbal
Ela vai apresentar hits do primeiro cd, mas concentrará o show no seu segundo trabalho, todo dedicado ao seu marido, morto por overdose acidental em 2008. A cantora britânica sumiu da mídia por um tempo após a tragédia até lançar “The sea” neste ano. O álbum é um dos finalistas do Mercury Prize, maior premiação musical do Reino Unido.
Quer uma amostra do que vai tocar por aqui?
http://nutellacongelada.wordpress.com/2010/06/30/for-the-lovers/
vídeo de performance ao vivo:
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