Metrô
Metrô
Éramos seis quando ele entrou. Cada um em um banco verde, todos muito bem condicionados, deixando os azuis livres. A moça de branco mexia no celular, e, muito embora estivesse de frente para o rapaz com fones de ouvido, seus olhares não se cruzaram enquanto eu ali estava.
Havia mais outro homem, novo ainda, vinte e poucos anos; ele não desgrudou os olhos do celular, ou melhor, apenas quando a última estação foi anunciada por aquela familiar, mas nem por isso doce voz mecânica. Bom, isso só foi depois. Tinha aquela que ficava olhando pela janela, aparentemente entretida, talvez observasse a proximidade do trem com a parede, ou procurasse por aqueles sinais que nos lembram que pessoas andam por aqueles túneis.
Um senhor de meia idade sentava-se num dos assentos posicionados lateralmente, mal se mexia, como que concentrado em algo distante. Quando próximos do terminal, ele se levantou e, do meu lugar, avistei o máximo de interação que ocorreu naqueles vinte e cinco minutos: estava de perfil, segurando na barra próximo do teto, olhando fixamente através do vidro. Do meu ângulo de observação, era como se seu braço encostasse levemente na cabeça da moça que também ficava olhando pela janela. E nesse momento percebi como se assemelhavam fisicamente.
Havia além de mim, um jovem que se sentava num desses assentos que ficam voltados de costas para o sentido que o trem se dirige. Enquanto eu observava, contando quantos éramos após o esvaziamento da estação anterior, nossos olhares se cruzaram, de relance. E ambos se voltaram para direções opostas como que encabulados por aquele simples constatar da presença do outro.
Foi na penúltima estação que ele entrou. Os ombros curvados como se usassem pesada mochila e não a pasta de couro. O nó da gravata meio frouxo e as costas do paletó amassadas, com marcas do sentar-recostar-levantar. Seus olhos meio turvos, percorreram o interior do vagão. Tantos lugares vazios, verdes e azuis. Foi com surpresa que o vi se dirigir à frente, onde fica a janela por onde pode-se observar o caminho que o trem faz, bem de frente.
Ele endireitou o corpo, as pernas levemente abertas, um braço estendido na lateral do corpo segurando a pasta de couro, outro apoiado firmemente na reentrância da janela. Foi nesse momento que tive o privilégio de presenciar aquilo. Era um menino, um menino na cabine da maria-fumaça, o vento nos cabelos, os ombros soltos e leves. Sentia-se no controle, firme, impassível. Nós não estávamos ao seu redor, ele estava sozinho em sua tarefa. E, ao chegar na parada final, avistar o terminal e o frear perfeito, desceu satisfeito, o peso ausente de seus ombros, a pasta a ser lançada de um braço para o outro pela frente do corpo.
E eu ali sozinha a observar aquele momento, ao qual os outros permaneceram alheios todo o tempo. Observei-os ainda fundirem-se à multidão que tentava entrar na fila da escada rolante, alguns foram pelas escadas, e fiquei ali a olhar por alguns segundos, sentindo-me privilegiada por ter conseguido perceber aquele instante.
foto-pretensiosamente provocadora de minha autoria
Noite de festa
Noite de festa
‘(…) na casa aberta/é noite de festa/dançam Geralda, Helena, Flor(…)’ – música de Flávio Henrique, letra de Chico Amaral. No álbum Pietá, de Milton Nascimento.
Já era noite pelo relógio, mas em pleno horário de verão, ainda estava claro. A lua aparecia timidamente no céu, o branco da lua e das poucas nuvens mesclando-se. Aquele fim de tarde após a chuva estava incrivelmente fresco, diferente dos outros dias anteriores, muito abafados. Subindo-se a rua, depois de passar por alguns prédios altos o bastante para destoar da ainda maioria de casas térreas do quarteirão, podia-se avistá-la.
Os raios de sol tornavam-se levemente alaranjados, e aquarelavam os muros laterais brancos. A música podia ser ouvida da esquina, chegava até os apartamentos dos prédios vizinhos, sem pedir permissão. O portãozinho estava aberto e era possível observar as pessoas a tocar seus instrumentos, dançar e cantar na sala de estar, pela rua. Uma menina distraída passeando com o cachorro tirou os fones do ouvido e parou para escutar.
Deixou-se demorar-se ali, observando a sala de estar, a música parecia estar sendo tocada no meio da rua, tão fácil era senti-la irradiando-se pelos arredores. Era a primeira vez que reparava naquela casa. Achou o jardim bem cuidado, as rosas vermelhas e cor-de-rosa incrivelmente bonitas, e perguntou-se como a dona da casa fazia para cuidá-las. Seu pequeno jardim, no alto do 12º andar não ‘ia pra frente’, por mais que tentasse toda a sorte de adubos e aditivos disponíveis para se comprar.
Mas os pensamentos do jardim não duraram muito em sua mente, pois logo identificou que tocavam uma marchinha de carnaval, uma que sua mãe costumava cantar, embalando-a quando criança. Sorriu consigo mesma, acariciou o cachorro, que tentou, em vão, desvencilhar-se do abraço apertado e se permitiu ficar mais alguns instantes a observar o ensaio. O grupo de pessoas era diversificado, um jovem da idade dela, duas senhoras, alguns senhores de meia idade, e outros cujos sinais do tempo e das experiências eram mais evidentes nas faces.
O publicitário compenetrado em cumprir seus 45 minutos de caminhada, recomendação do cardiologista, caso ele tivesse disposto a evitar problemas de coração não gostava de fones de ouvido. Experimentara de todos os tipos, mas todos pareciam machucar suas orelhas. Música alta nos fones era para aqueles que não podiam ficar com seus próprios pensamentos, o que não era seu caso, dizia a si mesmo, todos os dias, antes de caminhar. Estava prestes a completar trinta minutos, quando, aproximando-se da esquina, ouviu a música.
No começo, não deu muita atenção, e voltou a seus pensamentos. Porém, algo estranhamente familiar na canção tocada o fez parar um pouco, para escutar. Lembrou-se das brincadeiras de criança, da casa de vila, dos vizinhos reunidos. Das marchinhas de carnaval, dos preparativos. Consultou o relógio, e deixou-se observar, por pouco tempo, senão perderia o ritmo, aquele ensaio de carnaval. Foi se aproximando da casa quando deparou-se com a menina e com o cachorro. O cachorro estava deitado na calçada, dormindo confortavelmente. A menina estava de pé, bem de frente para a casa, sem disfarçar que assistia atentamente ao ensaio.
Ele juntou-se a ela, de certa forma, a observar também o ensaio, do outro lado da rua, os portões azuis da casa estavam abertos, tinha-se a impressão de que a sala de estar era parte integrante da rua. Olharam-se como que envergonhados por estar naquela situação, mas havia um meio sorriso em seus rostos que não era possível disfarçar. A música estava quase no final, e ambos cantarolavam trechos dela, ela, fingindo falar com o cachorro. Ele, bem baixinho, para si mesmo.
A canção chegou ao fim, os participantes da animada roda dançavam, e uma senhora de vestido vermelho foi até o jardim, abrir os portões. Ela olhou para as duas figuras do outro lado da rua e sorriu. Chamou ambos até onde estava, e eles a acompanharam. Apresentou-os aos outros membros do grupo, explicou a eles que ensaiavam para o carnaval. Os dois elogiaram a todos pela música, e aos poucos começaram a se soltar. Esqueceram-se dos outros compromissos e ficaram a aproveitar a música e a boa companhia.
O cachorro amarrado no banco do quintal não se incomodava pois também encontrara companhia. A lua agora dominava o céu, transformando o ensaio numa verdadeira noite de festa, e outros vizinhos vinham até a casa aberta, recém-chegados do trabalho, prontos para participar. Pegavam alguns instrumentos no baú, no canto do cômodo, que tornava-se mais espaçoso, com as portas escancaradas para o avarandado que dava para o jardim.
A menina esqueceu-se que precisava arrumar coisas em casa. O publicitário também, e o projeto grande para a semana que vinha abandonou sua cabeça. Não precisava mais convier com seus pensamentos, pois naquele momento, simplesmente não os tinha. No lugar deles, era todo sensações. E as sensações eram desfrutadas aos poucos, languida e intensamente. Pegou um tambor e arriscou acompanhar a marchinha. Sempre falhara nessa quando era criança, mas dessa vez, conseguiu. Sorriu e arriscou alguns passos de dança na roda, chamando a menina a dançar. Ela despira-se de sua timidez e dançava com as senhorinhas.
A lua ainda dominava o céu quando se despediram apressadamente, acordados pelo tocar de celulares e prometeram voltar em outros ensaios. Saindo da casa, descobriram-se vizinhos de prédio, moravam no mesmo condomínio. No elevador, conversaram sobre as marchinhas tocadas e sobre a possibilidade de se juntarem ao grupo. Os dias se passaram e algumas semanas depois eles ainda falaram daquela noite. Meses depois, esbarravam-se no elevador, mas passaram a falar sobre o tempo um achando que o outro não se lembrava daquela noite. Ainda os vejo de vez em quando, quando a época dos ensaios chega, se demorando em frente àquela casa. Mas noite de festa como aquela não houve igual.
Obs.: Assista ao vídeo da canção que me inspirou antes, durante ou depois de ler.
drops (3)
A falta de tempo aliada com o fato de que tenho textos que fiz há algum tempo aqui em casa, levaram-me a cair na tentação de postar umas coisas mais “antigas”, algumas que eu fiz para fins escolares até. Mas, espero que considerem minha (boa?) intenção e dou continuidade aos drops.
Talvez alguns de vocês se lembrem do caso da astronauta da NASA, Lisa Nowak, que foi presa por ciúme doentio em 2007. Lisa tentou seqüestrar e agredir a engenheira militar Collen Shipman, por ela ser sua rival numa disputa amorosa envolvendo William Oefelein, piloto da nave Discovery numa missão em dezembro de 2006.
Baseando-me nessa notícia de jornal que continha informações sobre esse caso, escrevi um pequeno conto (?).
Astronauta ciumenta tenta atacar rival ORLANDO (EUA)
- A astronauta da agência espacial americana (Nasa) Lisa Nowak, de 43 anos, que integrou a tripulação do ônibus espacial Discovery em julho de 2006, vai ser indiciada por tentativa de assassinato após tentar seqüestrar e agredir a engenheira militar Colleen Shipman na última segunda-feira. Segundo ela, Colleen seria sua rival na disputa pelo amor de outro astronauta. Agora, Lisa terá que levar junto ao corpo um dispositivo de rastreamento por satélite
O homem no meio do triângulo amoroso é o oficial da Marinha William Oefelein, piloto da nave Discovery durante uma missão em dezembro. Lisa, que tem três filhos e é casada com um capitão da Marinha, foi detida após viajar de sua casa em Houston, no Texas, até Orlando, na Flórida, onde mora Colleen. Usava uma peruca e um sobretudo para esperar Colleen, que viria num vôo vindo de Houston. Interrogada, Lisa afirmou que foi de Houston a Orlando sem parar (a distância é de 1.600 quilômetros), usando uma fralda para não ter de ir ao banheiro. Chegando na cidade, ela seguiu Colleen até o seu carro, que estava parado num estacionamento.
Segundo o relato de Colleen, Lisa tentou entrar em seu carro e a atacou com um spray de pimenta, causando uma perda momentânea de sua visão. Já no carro de Lisa foram encontradas uma carta que descreve seu amor por Oefelein, além de e-mails entre ela e o astronauta. Lisa afirmou que seus contatos com Oefelein eram ½algo mais que uma relação de trabalho, porém menos que uma relação amorosa”.
Oefelein é solteiro, mas, segundo uma biografia da Nasa, tem dois filhos. Um porta-voz do Departamento de Polícia de Orlando afirmou que ½é um caso muito triste. É uma pena que agora ela esteja do outro lado da lei.” Já o porta-voz da Nasa no Centro Espacial Johnson, em Houston, informou que até o momento a condição de Lisa como astronauta da agência espacial não mudou.
A astronauta tem mais de 1.500 horas de vôo em 30 tipos diferentes de aeronave. De acordo com o jornal americano Orlando Sentinel, Colleen é engenheira no 45º Esquadrão de Apoio a Lançamentos, em uma base próxima ao Centro Espacial Kennedy.
Um pouco tarde demais
Naquela manhã fria de 2ª feira, Lisa acordou mais cedo do que de costume, levantou-se da cama e olhou indiferentemente para o homem que ainda dormia. O homem com quem dividia o sono e a casa, aquele chamado por “marido”.
Marido que, supostamente, deveria fazê-la feliz, apóia-la amá-la, “na alegria, na tristeza, na saúde, na doença, até que…”. Coisas ditas num dia que parecia distante da rotina sem graça a que estavam atrelados agora.
Ela tomou banho, vestiu uma roupa confortável, tomou café rapidamente e deu um beijo nos filhos. Entrou no carro e deixou o motor aquecendo, subiu ao quarto e pegou a bolsa e a sacola com as compras feitas no dia anterior.
Ao fechar a porta de casa, esboçou um meio sorriso, satisfeita de ter planejado tudo antecipadamente e de ter executado com perfeição. O marido acordaria e levaria as crianças ao colégio, crianças estas que acharam normal quando contou sobre a viagem a trabalho, acostumadas com a ausência da mãe.
Entrou no carro e dirigiu quarenta quilômetros, fora de sua cidade, parou no posto de gasolina, foi ao banheiro e voltou a dirigir. Era dia vinte e seis. Fazia seis meses, seis meses que pareciam ser melhores do que os últimos catorze anos de casamento. Eram colegas de trabalho, mas de uma hora para a outra ele se tornara seu pilar, sua sustentação, uma fonte de alegria em sua vida sem graça.
Entretanto, nas últimas semanas, ela percebera que ele estava distraído, inquieto até mesmo.
Collen não tinha esse direito, de deixá-lo desconcertado, de ocupar o tempo dele, de rir junto a Oefelein. Para ela, ele era apenas uma distração, um rosto que se juntaria a outros da tripulação em sua memória. Enquanto que para Lisa, ele era sua chance de ser feliz, o estopim para o pedido de divórcio, uma vida feliz a dois.
Lisa foi encontrada morta mil quilômetros de sua casa, a seiscentos metros da residência de Collen. Morreu num acidente de caro, ao fazer uma curva acentuada na ponto de Houston. Descartou-se a hipótese de suicídio, pois, junto a ela, foi encontrada uma agenda na qual escrevera sobre seu relacionamento com Oefelein, seu casamento infeliz e o minucioso plano de deter Collen.
texto de 27 de fevereiro de 2007, modificações 21 de março de 2009


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