Entre fotos e livros
Entre fotos e livros
Fui conferir a exposição de fotos do cineasta multitalentoso Wim Wenders, felizmente prorrogada até dia 13 desse mês no MASP. Gostei da seleção, mas achei que haveria mais fotos… É interessante o nome da exposição ‘Lugares Estranhos e Quietos’, e, ao observar duas pessoas sentadas de frente para a foto da marca de meteorito, tirada na Austrália, percebi que esses ‘lugares estranhos e quietos’ fotografados por Wenders tem sobre quem vê as fotos o mesmo efeito que os levou a fotografar (conforme esclarecido em seu texto introdutório na exposição).
As fotos foram tiradas em andanças pelo mundo, e mesmo em locações de filmes.Uma das fotografias, ou melhor, duas delas, são de uma roda gigante, cada uma de um ângulo diferente. Assim que coloquei os olhos na primeira delas, que tem ao fundo alguns prédios, lembrei do livro ‘Uma pálida visão dos montes’, o primeiro romance do escritor japonês (mas que mora na Inglaterra e escreve em inglês) Kazuo Ishiguro, vencedor do prêmio Winifred Holtby da Royal Society of Literature.
Li a maioria dos livros de Ishiguro, mas por enquanto fica a dica de ‘Uma pálida visão dos montes’. Quem sabe depois de ler a sensação perante a foto é a mesma? Indico a leitura, apesar de não ser o meu favorito dele. Provavelmente um dos meus favoritos, sou incapaz de apontar apenas um, é ‘Um artista do mundo flutuante’, que eu, in my humble opinion, considero uma obra-prima.
Acabei de ler outro dele, que achei num sebo da Pedroso de Morais, em Pinheiros, por uma pechincha de 15 reais! Chama-se ‘O Desconsolado’, no qual ele trata da viagem de um músico de fama internacional a uma pequena cidade do Leste Europeu. Não sei se é a tradução, ou a fonte escolhida, ou o fato de que, em diálogos extremamente extensos, por se tratar da fala de um mesmo personagem (ainda que ocupe páginas) não há marcação de parágrafo, prosseguindo por linhas contínuas, mas no início foi difícil lê-lo, não possuía tanto entusiasmo pela leitura. Mas, tendo-o terminado ontem (confesso que ainda estou um pouco em ‘choque’, o mais adequado seria uma sensação de estranhamento pelo final, feeling que só me lembro de ter tido ao terminar ‘A queda’ do Albert Camus (excelente, por sinal).
Com as minhas leituras de férias, tive a ideia de indicar um livro, todo mês. Assim, sem muitas pretensões, apenas uma indicação minha, de livros que me marcaram de uma forma ou de outra. Não deixem de conferir a exposição do Wenders e de lembrar de procurar um livro do Ishiguro, nem que seja para dar uma folheada, da próxima vez que estiver em um sebo ou livraria.
Atualizações musicais
No post ‘hold me in your arms’, escolhi a música “Solitude”, em performande de Billie Holiday para acompanhar, mas acho que a mais adequada seria “A house is not a home”, se levarmos em conta os primeiros versos.
A House Is Not A Home
Aqui vão algumas opções de versões (a segunda, a gravação é muito boa, e segundo li, foi a que consagrou a música, teria sido a primeira gravação):
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Uma coisa que é estranha, o post anterior, ‘Procura-se’ é um dos escritos mais pessoais que postei aqui, entretanto, ‘no feebcaks so far’. Talvez soe muito como Drummond? Ou então muito pessimista? É algo tipo sentimento de mundo mesmo, escrito num intervalo de aula, de uma vez só, com algumas alterações feitas a posteriori.
Por ora é só. Quase no fim do semestre. Correria é pouco.
Death Proof

imagem daqui
Voltando às dicas de férias depois de muito tempo, nada melhor no friozinho de julho que assistir um filme. Alguns preferem o conforto do lar, as cobertas e sua própria pipoca de microondas. Pra mim tanto faz, desde que eu veja um filme que queira. Vale sair de casa no frio e na chuva (igual estava semana passada) pra assistir um filme que eu já não tinha mais esperanças de que fosse entrar em cartaz.
Achava que Death Proof (que estreou essa última sexta, dia 16) fosse chegar direto em DVD. Contrariando as minhas expectativas, ele estreou por aqui em pleno Festival de Cinema Latino Americano, acompanhado pela Mostra Audiovisual Israelense. O filme é de 2007, estreia aqui com 3 anos de atraso, três anos depois de Planeta Terror, com o qual formava o um díptico, Grindhouse, em homenagem aos filmes B que eles, Tarantino e seu amigo Robert Rodriguez, assistiam em drive-ins e salas da meia noite.
Segue reproduzido a seguir, na íntegra, o artigo de Luiz Carlos Merten publicado sexta-feira dia 16 de julho, no Caderno 2 do Estadão.
“Tarantino agora à toda velocidade
Em Cannes, há três anos, ele chegou como campeão. Quentin Tarantino, de novo na competição, tentava bisar a Palma de Ouro que recebeu por Pulp Fiction (Tempo de Violência) , nos anos 1990. Cahiers du Cinéma , estampou na capa sua aposta no festival daquele ano e era justamente À prova de Morte (Death Proof), batizado como Le Boulevard de La Mort. Na volta de Cannes, a revista continuou elogiando o filme, mas a capa, agora, era de Zodíaco, de David Fincher, que, a propósito também não ganhou (a Palma).
À Prova de Morte estréia hoje na cidade. Só o fato de o filme entrar em cartaz já é uma vitória. O filme foi concebido como parte de um díptico que Tarantino fez com seu amigo, o também cineasta (tex mex) Robert Rodriguez. A idéia era recriar os programas duplos – Grindhouse – que caracterizavam o cinema massivo norte-americano, alimentando drive-ins e salas da meia noite, abertas 24 horas, de todo país. Esses filmes, de ‘exploração comercial’, se revelaram uma tendência forte a partir dos anos 1950, quando os estúdios foram proibidos, por lei, de possuir salas de exibição, até os 70.
O filme de Tarantino e o de Rodriguez (Planeta Terror) nasceram juntos, e complementares, mas o público rejeitou Grindhouse. Lançado no Brasil, Planeta Terror não foi lá essas coisas. A distribuidora Europa, que apostava numa visita de Tarantino ao Brasil para incrementar o lançamento, desistiu de À prova de Morte. Os direitos foram repassados à PlayArte, que, após o megasucesso de Bastardos Inglórios, achou que valeria a pena investir neste outro Tarantino, anterior.
No ano passado, durante as entrevistas de Bastardos Inglórios – o filme ganhou o prêmio de melhor ator, Cristoph Waltz, em Cannes -, o cineasta voltou repetidas vezes a À Prova de Morte. Disse que seu filme, ao contrário das produções rasteiras e sensacionalistas das Grindhouses, era uma obra elaborada, na qual ele investiu o melhor de seu talento. Tarantino defendeu, principalmente, seu roteiro – e chegou a admitir que se considerava mais roteirista que diretor. “Não sei se creio em Deus, mas se ele existe me deu um dom divino – sou muito bom dialoguista. Sem modéstia, ninguém escreve diálogos melhor do que eu”.
Os diálogos de Bastardos Inglórios, disparados, como metralhadoras, por Brad Pitt e seus amigos, são outra prova disso, mas À Prova de Morte é agora o filme que você precisa ver. Os jovens, muito provavelmente, vão gostar mais, embarcando de cara na proposta tarantinesca. Os demais espectadores – os velhos? – talvez precisem elaborar um pouco, até se dar conta deque o filme é autoral como Cães de Aluguel, Pulp Fiction ou Kill Bill, que compõe outro díptico, aquele integralmente de Tarantino. O que estraga À Prova de Morte talvez seja Planeta Terror. Robert Rodriguez fez o protótipo do filme trash, sem muito níveis (embutidos) de leitura.
Tarantino assume que À Prova de Morte – definido como ‘slasher movie’, ou seja, um filme de horror em que um psicopata faz vítimas seqüenciais – é feminista, na vertente de Jackie Brown e Kill Bill. E ele explica seu feminismo – “Confio mais nas mulheres do que nos homens. Meus amigos me decepcionaram mais”. Simples assim, mas ele desenvolve a ideia, se você pedir. “Saio muito com mulheres. Minhas melhores amigas integram hoje grupos étnicos. E são jovens, mais jovens que eu. Saímos para beber, falar sobre cinema e sexo”. Justamente o sexo fornece o subtexto de À Prova de Morte.
O filme é sobre esse ex-dublê, Stuntman Mike (Kurt Russell), que equipou seu supercarro para resistir a choques frontais e cai na estrada como um predador,? atrás de belas mulheres. No começo, no bar, mulheres falam de quê? De homens. Como um diretor habituado a reproduzir o linguajar dos machos se sente à vontade para também criar o das fêmeas? Tarantino responde: “Não seria um roteirista, se não tivesse essa facilidade, Um escritor, para justificar a sua função, tem de saber dar voz a todo mundo, mas no meu caso é mais fácil. Basta dar voz a minhas amigas”.
Bom, tenho que falar que foi justamente esse lado ‘novo’ do Tarantino, pelo menos pra mim, que me surpreendeu no filme. Até fiquei pensando… Teria ele feito dentro de um filme sobre um supercarro, um ‘slasher movie’ como escreveu Merten, um retrato das mulheres reais? Da sexualidade das mulheres emancipadas da nossa modernidade tardia? Nada disso? Assista e faça suas provocações também!
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