Somente só
O vento despenteando os cabelos enquanto acenava com um lenço amarelo, o navio a partir rápido, o rosto dele já a se (con)fundir aos outros rostos no convés, e aquela união inusitada de traços comuns que decorara cada vez que lhe contemplara a face perdia a singularidade, apenas uma parte do todo, agrupando-se aos outros. O navio a partir vagarosamente, permanecendo por muito tempo à vista e o vento contínuo, teimoso, dava movimento à saia levemente rodada que vestia. Olhou em direção ao chão, os pés sujos nas sandálias novas, impregnados da sujeira do píer. Eu, aqui – você, lá. E então o vento soprou mais forte, desprendendo o lenço da mão, o amarelo planou e rodopiou por alguns instantes naquele pedaço de céu, e depois, planando foi pousar num pequeno barco colorido de vermelho.
A música do despertador, a Sofia miando. Olhou em direção aos pés, que estavam frios, e viu a chuva batendo de leve na janela. Não podia se dar ao luxo de um despertar moroso. O bocejo em frente ao espelho, a análise das possíveis marcas de expressão. Então se lembrou, observando as futuras rugas no meio da testa, de tanto fazer-cara-de-brava-sem-querer. Lembrou do sonho, da saia que estava na cadeira, roupa escolhida na noite anterior, seguindo a previsão do tempo. Ah, o sonho. E então se perdeu em imagens que invadiram-lhe a mente, de momentos juntos, das trocas, das conversas.
Então lançou os olhos pela janela, enquanto escova os dentes. A espuma branca pingou no pijama. Chuva? Previsão de dia ensolarado, e o dia começa com chuva. Tudo tão minuciosamente planejado a escorrer pelo ralo. Os pormenores todos arranjados, e, de repente, chuva. Sofia continuava na cama, deleitando-se com as cobertas inteiramente para ela. A granola com frutas de sempre, o copo de café com leite posicionado diagonalmente, na ponta direita do jogo americano. Comeu com gosto, sentada de frente ao microondas que refletia sua imagem. Mas então se lembrou do comentário dele, de que aquilo era a cara dela, um aparelho ‘multifuncional’. Perdeu o apetite, mas engoliu a metade restante na tigela. A banana que havia deixado separada para depois do cereal permaneceu intocada.
De frente para o espelho do banheiro, escova, pasta, água. Ligou o chuveiro bem quente, e o vapor inundou o cômodo rapidamente. Exatos dez minutos, nem nove nem onze. Enxugou-se, hidratou a pele. Olhou pela janela – ainda chovia. Franzindo a testa, abriu o armário, muitas opções. Mas o que realmente queria usar estava lá, na cadeira, separado. Pensou se poderia fazer ‘ajustes’, colocar uma meia-calça por baixo, ir com um sapatinho fechado. Não, aquela roupa não aceitava adaptações. Estava pronta, planejada, até com as sandálias recém-adquiridas ao lado.
Contudo, continuava a chover, e ela não podia fazer tudo o que queria. Ela não podia controlar tudo. Algumas coisas estavam simplesmente fora de seu alcance. Escolheu outra roupa, sem muito pensar, o básico jeans, camisa branca e um casaqueto de malha por cima. Entrou no banheiro, ainda úmido, o espelho ainda embaçado enquanto organizava a maquiagem sobre a bancada. Gotículas acumulavam-se no caminho que seu dedo traçava na superfície. Então, lembrou-se. Recordou da conversa sobre a corrida de gotas, do ônibus lotado com as janelas embaçadas. Com o dorso da mão, limpou grosseira e rapidamente o vidro. Maquiou-se automaticamente, em cinco minutos, como mostram no programa de TV.
Pegou a bolsa, o sapato, sem pensar direito. Olhou para Sofia, que agora estava perto da janela, aproveitando que a chuva diminuía e uns tímidos raios de sol apareciam. Tarde demais para trocar de roupa, ela não tinha mais escolha, o tempo havia passado rápido, ligeiro, sem ela se aperceber. Deixou a porta aberta, assim Sofia podia escolher em que cômodo ficar, Sofia tinha essa escolha. Pegou o elevador vazio, estranho para o horário, mas permaneceu de costas para a porta. Observando se parecia tudo certo. Parecia. Nada fora do comum, nada que pudesse denunciá-la. As bolsas embaixo dos olhos eficazmente disfarçadas, nenhuma vermelhidão.
Escolha. Escolha que não teve quando soube da mudança. O jantar diferente, requintado, mesmo para ele que cozinhava desde a adolescência. Conhecendo ela há tanto tempo, ela esperava (in)conscientemente que ele saberia que precisava de preparo prévio, que tinha necessidade de tempo para se preparar para a perda. Há quem ache estranho, que é como sofrer por antecedência, mas para ela se tratava de adaptação, de adaptar-se à ideia da partida, ajustar pequenos parafusos mentais, só isso. Errou, ele não quis que ‘sofresse por antecedência’, preferiu dizer, assim, repentinamente, entre a entrada e o prato principal, completamente out of the blue: ‘fui promovido’. Estranhamente para o observador, não sorriu, engoliu, já sem vontade o pedaço de carne e foi abraçá-lo. Aquele abraço, para ela, era um teste, um teste para ver se seus corações estavam a bater no mesmo ritmo, ou se estavam descompassados.
De tanto fingir, passa-se a acreditar. O pior mentiroso é aquele que mente para si mesmo. Sempre gostou mais da primeira frase, primeiro dito popular, desde que a escrevera em seu caderno, na 4ª série. A professora sempre passava ditados populares diversos, mas esse, de todos que copiara, era o que mais lembrava. O problema é se acostumar com a ideia, a ideia de que ela tinha o controle. De que tudo sairia como planejado. E aquela notícia da promoção era, justamente, o imprevisto, o que ela não controlava. Enrolava-se em sua teia mais uma vez, e não conseguia desvencilhar-se das próprias armadilhas para lidar com a situação. Passou a agir friamente, enquanto os dias passavam e os planos eram feitos. Ela sabia que ele não pediria.
Não, ele não pediria porque sabia que ela gostava daquele trabalho (quase?) mais que qualquer coisa. Sabia como era competitiva e que se esforçara ao máximo para chegar até ali. O que fazer, pedir mesmo assim? Sabia que na verdade, gostaria que ele o fizesse, mesmo sua resposta fosse não. Envolta em sua própria nuvem, não via que às vezes dizer ‘não’ não é uma decisão, senão o medo de dizer sim. O fim do dia chegava, e tudo que queria era uma boa noite de sono.
O ar era gelado e seco, típico de aeroportos, sabia onde estava só pelo clima, o chão cinza encardido e a estrutura de concreto armado. Ele sorria, parecia não ligar para o lugar lotado, as pessoas no chão, outros dormindo sobre as pequenas malas de mão. A saia levemente rodada, pouco acima do joelho, as sandálias a calçar os pés imaculados. Ele era todo sorrisos, e luz, a olhava nos olhos arrastando-a para aqueles mares, nos quais não se importava de acabar inebriada, de mergulhar neles e afogar-se. Ele segurava suas mãos, que estavam gélidas, um pouco mais que o normal, podia-se ver que seu estado era de expectativa, a pele entre os dedos úmida de suor frio. Mais um aviso sonoro, grupo de pessoas se movimentando desorganizadamente, passando pelos dois, mochilas e conversas barulhentas. De repente suas mãos se soltaram, ela ficou com elas no ar, os dedos levemente trêmulos.
Acordou no susto, contrariada com a injustiça. Sandman, Sandman, como poderia ser tão cruel? Trazer para perto dela aquele de quem mais sentia falta, os olhos que a acalmavam e a entendiam e depois ter aquilo tirado, de novo? Tentava arrumar algum culpado, apesar desde quase-criança saber que era a culpada por aquilo. A responsável era ela, como sempre. Não era uma injustiça, o sonho, a sensação de vê-lo daquela forma, tão feliz. Era a chance de se despedir que não teve, a coragem que lhe faltou no dia certo, o medo de um ritual que pudesse desestabilizá-la. E ficava a pensar a, se ao menos, se ao menos ele tivesse me pedido, me perguntado. Pensava agora que teria aceitado pois não queria ficar sozinha ali. Sozinha no apartamento que rachavam o aluguel juntos. Sozinha no apartamento que dentre os quatro que visitaram sempre foi o favorito. Sozinha… escutou um barulho vindo da cozinha. Uma faísca de calor tomou seu peito. Sofia veio pelo corredor, e pulou em cima da cama. Não, não estava sozinha.
(não) Nostalgia
foto daqui
(não) Nostalgia
A música tocada pelo velho senhor do outro lado da rua soava melancólica. Quase como se o violino pedisse para parar. Como se não mais agüentasse aquele labor, num arrastar ansioso pela pausa que dura mais que qualquer outra.
Não sei se era eu, mas o café charmoso a que sempre nos dirigíamos para longas conversas sem preocupação de sermos expulsos estava diferente. A proprietária, dona Clara, nos conhecia desde nossa ‘primeira adolescência’. Em outras ocasiões, quando ela ainda estava bem de saúde, e ficava no caixa, a distribuir cumprimentos calorosos aos fregueses, perguntava-nos onde estavam os outros. É engraçado, pois, nossas respostas saíam quase ensaiadas, uma hora era a faculdade, depois a namorada, os amigos do serviço, alguma coisa qualquer que mantinha os outros ocupados, mesmo que para um café.
Há algum tempo, não ocupávamos mais as quatro mesas cheias, mas a localização era sempre a mesma, no canto, de onde podíamos ver a janela, a porta, o movimento da rua, mas próximos do centro, ao mesmo tempo. Não sei explicar, mas era assim. Sabia, assim que ele me ligou, chamando para tomarmos café juntos, que a escolha fora proposital. Afinal, apesar de não ser todo fim de semana, nos velhos tempos (o que parece um pecado dizer, segundo a dona Clara, visto a idade que temos) íamos ao café com freqüência, mais que isso, era parte da nossa rotina.
Assim que se sentou, percebi que estava agitado. Seus olhos dispersos, não me olhava nos olhos por mais de três segundos seguidos. Amigos desde a infância, ele sabia que eu estava a analisá-lo, tocou de leve meu braço, e disse firmemente, de maneira convincente para qualquer um que ouvisse, exceto eu – ‘Você não precisa olhar pra mim desse jeito. Já sei o que você está fazendo, mas eu estou bem Mô. Estou bem, sério, isso é desnecessário. Além do mais, vai ser melhor assim’. Gosto do som da voz dele me chamando de Mô. Há um tempo atrás o pessoal costumava brincar com isso, que era ambíguo ele me chamar assim. Bobagem, apenas um apelido apropriado para o meu nome.
Agora percebo que eu, como sempre, me apegava a algo secundário – analisar o Felipe – para não ter que encarar meus próprios sentimentos com relação ao que estava acontecendo. Fiquei a fitar-lhe os olhos verdes por algum tempo, os raios alaranjados do sol da tarde coloriam e passavam por entre as frestas da cortina branca rendada, do lado de fora, o senhorzinho descansava, deleitando-se com um copo de café do bar da esquina, o violino silenciado, pousado ao seu lado. O cabelo dele sempre ficava mais claro sob a luz do sol, não tinha mudado nada desde os treze anos, a verdade é que, embora se dissesse um cara moderno e desapegado, isso não era verdade. Ele não trocava de corte desde que eu dissera que dá um charme ao rosto dele e coincidentemente foi com ele que conquistara a primeira namoradinha.
– Mô, você acha que, se eu ficasse aqui, as coisas mudariam? Se estando aqui nada acontece, do que adianta eu…
– Mas com você indo, as coisas só vão ficar mais, mais…
– Mais? Mais o quê? Chega, acabou. Você já sabe que não é como antes, estarmos aqui eu e você, apenas, é prova disso. Não só não é como antes, mas ninguém mais quer que seja. Ninguém se esforça mais para vir.
Foi nesse instante que o celular dele tocou pela primeira vez ‘In many ways, they’ll miss the good old days/Someday/Someday’, aquela música do Strokes que eu ouvi pela primeira vez naquela tarde na casa dele. Estávamos todos lá. O sol já estava de saída, o azul escuro passando a dominar a cena. Sentados ali, apreciando a música, no jardim da casa dele, lembro que os pais dele ainda não estavam separados. Ele nem se mexeu, estava concentrado demais nessa conversa, e queria usar todas as suas habilidades de advogado recém formado para eu ceder.
Eu sei, sempre falam ‘alguém tem que ceder’, mas eu não cedia antes, por que ele se iludia achando que agora, só porque tinha aprendido algumas técnicas de retórica e oratória, as coisas seriam diferentes? Certas coisas não mudam, não importa o tempo que passe, o que se aprenda, elas simplesmente permanecem as mesmas.
– Então, você nem se despediu deles…?
– Para que me despedir deles? Já me despedi dos colegas de trabalho, da faculdade, por que eu vou me despedir de gente que não vejo há meses… Na verdade, há quase um ano?
– Não acredito que você falou isso! Quer dizer que se despedir das pessoas com as quais você nunca passou do ‘Bom dia, como vai?’ – ‘Bem, e você?’ – ‘Tudo ótimo, obrigado’ e não se despedir daqueles com os quais você tem toda uma história juntos, isso faz sentido? Nem que fosse por consideração, por amizade, era o mínimo…
– Amizade? Consideração? Eles não se davam nem o trabalho de cancelar quando começaram a faltar nas nossas ‘reuniões’. Será que você já se esqueceu que ficávamos a esperá-los, ocupando três mesas daqui do café, passando vergonha, com duas delas completamente vazias? E amizade é feita de consideração pelo passado agora? Por favor, Mô, são boas memórias, somente boas memórias.
É claro que o ouvi atentamente. Eu, talvez até mais do que ele, lembrava bem daquela cena, as duas mesas vazias, a dona Clara um misto de irritada e preocupada, e eu, otimista ainda, tentando ligar pras pessoas. Nem sei se realmente estava otimista, mas era essa a impressão que eu queria dar. Dissimulando minha verdadeira irritação e uma ponta de desapontamento por eles simplesmente não estarem lá. Acabávamos nós dois, ou nós e mais um que chegava uma hora depois do combinado, em uma mesa, papeando sobre coisas que nem me lembro.
Até ele falar aquilo e me despertar essas memórias, eu estava mexendo o chantilly do meu expresso curto, displicentemente. Não sei ao certo a razão, mas reparei no teto. No cantinho, sinais de mofo, uma, duas lâmpadas queimadas. Senti um pouco de nojo, e percebi, com uma estranha surpresa, no estofamento das cadeiras vazias da mesa ao lado, o alaranjado do sol não mais disfarçando o encardido.
Foi aí que dei por mim acreditando nele. Eu pensava que não ia ser nesse momento que cederia, mas cedi. Acreditei, tanto na decisão que tomara quanto na honestidade de suas palavras, estava convencida. Acreditei que ele não acreditava mais naquilo. Ele não olhava pra porta, nem pelas janelas, não esperava que ninguém chegasse. Não tinha chamado mais ninguém. Comecei a pensar subitamente em como eu era repetitiva para alguém como ele, que me conheci há tanto tempo. Ele provavelmente nem se dera o trabalho de escutar o que eu havia falado pelo telefone, sobre como as amizades podem se transformar ao longo do tempo, sobre como isso é normal. Dispersei esses pensamentos, e pronta para ceder, ia confirmar se ele não tinha chamado mais ninguém mesmo, quando seu telefone tocou novamente.
O toque do celular era a da música que marcara nossos dias de adolescentes com algumas tardes à toa ouvindo The Strokes: “In many ways we’ll miss the good old days Someday Someday” soou novamente, ele hesitava entre atender ou não, olhou de relance no identificador. Mas naquele momento o que vinha à minha cabeça era exatamente o outro trecho: “It hurts to say but I want you to stay”.
Saudades
Saudades
A pior coisa, tirando a partida dela propriamente dita, foi não ter a chance de dizer adeus. Lá no fundo, ele sabia que ela não ficaria por perto por mais tempo. Ou melhor, por muito mais tempo do que já tinha ficado. Muito tempo de relacionamento, pouco tempo vivido, muito caminho para percorrer. Não só ela, ele também. Mas ele sempre sentiu que os sonhos dela eram maiores, mais difíceis.
Notava as fotos-recortadas-de-revista, de Cambridge e de Paris no caderno que ela negava, mas ele sabia, que fazia às vezes de diário. Na cabeça dele, a vontade de entrar no curso de engenharia e seguir a carreira que sempre quis. A mesma carreira do pai. Conheceram-se no Ensino Médio, ele, em meio aos colegas “pegadores” com abordagens nada sutis com as meninas, trocava olhares com ela.
Na verdade, não era uma troca de olhares. Pelo menos não no começo. Ele olhava, observava, ela nem reparava. Na época, ele achou que se fazia de difícil, depois ela esclareceu que não tinha reparado mesmo. Ela reparou, certa vez, que ele a olhava. Esperava num ponto de ônibus, do outro lado da rua, e ele no outro. Ela olhou pra ele. Click. Ele desviou os olhos, bruscamente, envergonhado.
O jogo de olhares durou algum tempo. Ela tomou a iniciativa de conversar com ele. Para a surpresa dele, ela estava meio nervosa. Ele sabia porque já a tinha observado conversando com outras pessoas. Nele, o nervosismo traduziu-se na voz que saiu mais que estranha. Ela foi embora se perguntando se a voz dele era daquele jeito mesmo. Ele foi embora pensando se tinha sido ele que fez as maçãs do rosto dela adquirirem aquele tom rosado.
Três anos na vida deles. Ele, percebendo que ela não ficava a fazer planos a longo prazo, como ele. Mas ainda estavam na mesma fase da vida. Não era questão de sentimento. A intensidade do sentimento entre ambos era a mesma, recíproca, mútua Click. Passar por toda a tensão do vestibular, juntos. Quando ele prestou um e ela não, mesmo assim, era com ela que falava antes de entrar na sala. Era pra ela que ligava pra contar o resultado. Era com ela que saía no dia anterior às provas, a falar de amenidades, para distrair a cabeça, e otras cositas más.
Porém, depois que ele tinha entrado na faculdade, no curso que tanto queria. E ela estava fazendo cursinho para Artes Plásticas. Crack. Tentativa de se fazer presente, por parte dele, visitá-la no cursinho. Fazer passeios que só ela gostava. Nada. Nada adiantava, ele continuava vendo no rosto dela uma sombra estranha, que não fazia parte dela. Era como se não se sentisse mais parte da vida dele. Da nova vida dele.
Olhando o celular na mão, os dedos trêmulos, a vista embaçada sem conseguir as letras da mensagem de texto. Sem nem ao menos poder dizer adeus. Ele que a tirou da vida dele? Ou foi ela que sabia que eles não estavam mais na mesma, que a situação havia mudado? Crack. Ambos os lados em um esforço para que o outro ainda se sentisse parte daquilo tudo. Parte do que enfrentavam a cada dia, embora se deparassem com situações diferentes, e ela não se interessasse por cálculo integral e ele por técnicas de pintura à óleo.
Distantes. A distância só passou a ser física também. Ela já estava presente. Mas era como se ele sempre tivesse aguardado por esse momento. Como se soubesse que ela sairia da vida dele a qualquer momento. Sair da vida dele? E por acaso esse tipo de coisa acontece? Ele se lembrava de quando assistiram a um episódio de Smallville juntos, e Lana, ou teria sido Clark falava “…even when I don’t talk to you, you’re still part of my life”. Ele concordava, e olhou pra ela. Ela fez uma careta para a tela, franzindo o nariz, como fazia quando discordava de algo.
“Não sei dizer adeus. Ainda mais quando é algo definitivo” – palavras ditas por ela uma vez. Por isso ele ficava se perguntando, ali, no sofá, olhando pro celular na mão e os boxes de Smallville na mesinha de centro, se ela não fizera de propósito. Contar pra ele no último minuto que conseguira, conseguira uma bolsa de estudos e ia estudar nos Estados Unidos. Estados Unidos.
Ela lá, nos States, ele morando na casa dos pais, nem teve que se mudar de cidade quando entrou na faculdade. Crack. Ela diria nos primeiros emails trocados com ele “I miss you” – aos quais ele responderia “You say that you miss me, but I, darling, sinto saudades.Crack.
Nada mais desigual. Sentir saudades não é sentir falta. Foi então que ele percebeu que ela não quis dizer adeus para ele, porque queria o fim, não implícito, não “quando você voltar a gente vê”, o definitivo. Crack Final.


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